Veludo Azul é um filme estranho
- JORGE MARIN

- 2 de mar. de 2019
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de ago. de 2025
Difícil encontrar na constelação de filmes de David Lynch uma obra com tamanha crueza e, ao mesmo tempo, com certa coerência incomum aos trabalhos do diretor.
Começando como uma sátira ao American Way of Life, o filme apresenta uma cidade chamada Lumberton com gramados, flores e bombeiros gentis. Após um acidente doméstico, a câmera desce ao nível do solo, onde revela uma comunidade de insetos, como a dizer que, sob uma bela paisagem, subjaz muita corrupção e sujeira.
Veludo Azul muda então o rumo do enredo para filme de mistério: Jeffrey, um estudante universitário filho do homem acidentado na cena inicial, retorna de uma visita ao hospital quando encontra, num terreno baldio, uma orelha humana, que leva em um saquinho ao policial Williams, seu vizinho. Só que, ao invés de deixar a investigação a cargo dos profissionais, o rapaz resolve acompanhar o caso por sua conta, e pior, com a ajuda da filha do policial, a bela e sonhadora Sandy.
Não demora para que o casal descubra uma relação entre o evento e a cantora de boate Dorothy Valens. Indo ao apartamento da mulher, Jeffrey não apenas descobre que o marido dela (o dono da orelha) e seu filho pequeno foram sequestrados, como testemunha que o sequestrador, o gangster Frank, transformou a cantora em sua escrava sexual.
Com a partida de Frank, Jeffrey é descoberto por Dorothy. Tem início, a partir daí, um improvável relacionamento. Sentindo-se segura com o jovem, a cantora o abraça e pede que ele... a espanque. Essa ambiguidade poderia se tornar o novo fio do condutor do filme: até que ponto a relação abusiva do psicopata Frank pode ser prazerosa para Dorothy, e o quanto Jeffrey irá mergulhar no solicitado papel de perpetrador?
Ainda perdidos nessas questões, somos surpreendidos, junto com Jeffrey, pelo enlouquecido Frank (talvez uma das melhores performances de Dennis Hopper) que entra em cena e retoma o tema anterior.
Se existe uma (improvável) tentativa de final feliz, como no sonho de Sandy com pintarroxos, percebemos que se trata, efetivamente, de um sonho. Ou pesadelo.





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