Laranja Mecânica, perpetrador e vítima
- JORGE MARIN

- 22 de dez. de 2018
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de ago. de 2025
Se não mencionado o seu ano de lançamento, 1971, Laranja Mecânica poderia ser confundido com um documentário moderno sobre gangues. O assunto aqui não é a violência em si, que causou a proibição do filme em vários países, mas trata-se de política, que aparece todo o tempo no filme como um mecanismo (clockwork?) para a manutenção do poder vigente.
Dessa forma, o protagonista Alex DeLarge lidera seu grupo de droogies (“amigos” no dialeto Nadsat em que o filme é narrado, e também no livro homônimo, de Anthony Burgess), organizando as atividades próprias dos jovens daquela sociedade distópica: espancamento de mendigos, estupros, roubos e depredações em geral.
O conselheiro pós-correcional de Alex, o bizarro P. R. Deltoid, apenas aguarda o momento em que seu tutelado cometa algum crime para entregá-lo à (igualmente violenta) polícia. A oportunidade não demora, pois o rapaz acaba matando uma atrevida criadora de gatos e é condenado a 14 anos de prisão.
Já na prisão, e agora devoto colaborador do Capelão, Alex se voluntaria para um experimento de mudança de comportamento patrocinado pelo governo. Chamado de Tratamento Ludovico, a experiência consistia em implantar uma resposta aversiva a estímulos visuais de cenas violentas. Por acidente, a trilha sonora de um filme sobre atrocidades nazistas é a Nona Sinfonia de Beethoven, música mais amada por Alex que, a partir de então, será igualmente dolorosa para o “regenerado” prisioneiro.
Deixando de ser o perpetrador, Alex se torna vítima. Não apenas do Estado, mas também de todos os seus antigos objetos de tormento. Uma de suas vítimas, um líder da oposição ao governo, coloca o protagonista numa situação-limite, para que este, ao buscar se matar, invalide o tratamento químico oficial.
Por força do destino, Alex sai vivo, embora com muitas fraturas, do atentado oposicionista. Percebendo sua importância como peão midiático do jogo de poder, Alex descobre finalmente o lugar onde pode exercitar a sua psicopatia de forma institucionalizada e libertadora: a política.















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