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Uma Mulher Fantástica: convicção e realidades

  • Foto do escritor: JORGE MARIN
    JORGE MARIN
  • 4 de mai. de 2019
  • 2 min de leitura

Atualizado: 24 de ago. de 2025


Em Uma Mulher Fantástica, somos a princípio iludidos pelo diretor Sebastián Lelio a acreditar que o personagem principal do filme é Orlando, um empresário de meia-idade dono de uma confecção em Santiago no Chile. Pouco depois, somos apresentados à mulher com a qual está dividindo sua vida: a jovem cantora de salsa Marina Vidal, que se apresenta no clube do hotel Galeria, e que descobriremos ser também uma garçonete no dia a dia.

Após um jantar romântico, o casal dança, falam de uma viagem às Cataratas do Iguaçu no Brasil e, de volta ao apartamento de Orlando, fazem amor e dormem tranquilamente, até que, no meio da noite, Orlando passal mal. Indo para o hospital, sofre uma queda na escada e é amparado por Marina que consegue levá-lo, mas não a tempo: o empresário morre de aneurisma.

Confinada do lado de fora, numa área restrita com uma etiqueta com a inscrição “Area Sucia” (área suja), Marina é interrogada e investigada pelo médico antes de receber a notícia do falecimento do companheiro. O motivo da desconfiança é que a moça é transgênero e o seu documento de identidade ainda traz o seu nome masculino.

A questão do filme não é Marina ser tratada “como se fosse” mulher. Ela se sabe mulher, tem plena convicção do amor de Orlando (ela havia se mudado recentemente para o apartamento), está em luto pela morte dele, e não tem tempo, nem paciência, nem desejo de ser questionada por questões a seu ver absolutamente irrelevantes para o seu momento de dor.

Descobrirá, no entanto, para seu desespero, que a família anterior de Orlando, a começar pela ex-esposa Sonia, e o filho Bruno, apressam-se em afastá-la de tudo o que diz respeito ao empresário. A princípio pelo carro, depois o apartamento, e até mesmo a cadela Diabla que Marina se orgulha em ser um presente que recebeu do falecido.

A câmera de Benjamin Echazarreta é nervosa, impaciente, algumas vezes alucinada, mostrando nuances de uma realidade que nos assusta. No final, algo é restituído a Marina. Dignificada pela sua própria convicção de direito ao respeito, segurança e sexualidade, Marina termina o filme cantando uma ária de Handel: Ombra mai fu (Nunca houve sombra).

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